Consegui uma folga na semana passada, e aproveitei para passar alguns dias na Campus Party 2008. Conversei com muita gente envolvida com open-source, blogs, desenvolvimento de software, robótica e games, além de comprovar algumas idéias e descobrir coisas novas. Por exemplo:

  • O nerd brasileiro está longe do estereótipo de nerd americano. O nerd brazuca é até esquisito às vezes, mas tem facilidade em se socializar, muitos praticam esportes e quase sempre são respeitados pelos não-nerds. A imprensa procurava gente esquisita e de roupa estranha para retratar o evento, e acabou topando com cabelos azuis e gente tatuada.
  • Com uma conexão praticamente ilimitada à Internet - chegando a velocidades de download de 1 GB/segundo em um ponto de rede padrão - a Campus Party entregou mais informação para a Internet do que retirou dela. Foram baixados 150 TB, mas subidos 300 TB para a rede.
  • Foi um ambiente 100% anárquico e sem policiamento ostensivo. Os seguranças trabalhavam somente no controle de acesso à parte fechada do evento, e foram registrados apenas 6 incidentes em 7 dias: coisas como sumiço de teclados ou câmeras.
  • Ao invés da jogatina constante das edições anteriores na Espanha, a Campus Party Brasil teve ativismo, colaboração, festas, passeios no Ibirapuera e muita gente saindo da frente do computador.
  • Existem muitos projetos legais em tecnologia no Brasil, e também gente bem qualificada para trabalhar com TI - pelo menos umas 200 eu garanto que vi por lá.

Mas 200 é muito pouco. Será essa diferença na essência nerd que faz os geeks americanos serem mais tecnologicamente avançados que os brasileiros? A falta de outros interesses, a pouca sociabilidade, a necessidade de afirmação e aceitação, a cultura competitiva americana e o fácil acesso à tecnologia? Não sou sociólogo, então mantenho minhas teorias para mim mesmo.

Mas agora acabou o Carnaval, acabou o Campus Party e o ano novo começa no mercado de TI. Obviamente, o mercado global quer contratar ainda mais em 2008: 70% dos diretores em empresas de todo o mundo querem mais pessoas em suas equipes, e 50% disseram que está bem mais difícil contratar pessoas qualificadas. Os engenheiros de software - analistas e desenvolvedores, entre outros - são os mais disputados nesse mercado, segundo 54% dos diretores.

Ao mesmo tempo, 65% dos executivos disseram que os postos de trabalho estão migrando para países de menor custo (como China e Índia). Mesmo assim, essa migração parece ser um transbordo da capacidade interna, e não uma diminuição da oferta de vagas. E por incrível que pareça - não para mim, que bato nessa tecla constantemente aqui e no Mundo.IT - a falta de pessoas qualificadas em TI é problema em todo o mundo.

Novamente precisaram de uma pesquisa para comprovar o que a intuição já falava. 750 CIOs e CEOs de 23 países foram entrevistados, e 58% reclamaram do número insuficiente de pessoal para contratação (comparado a 35% em 2005). Do total, 38% também reclamam que as pessoas não têm as competências que deveriam…

Agora veja você… por mais que o empresário brasileiro reclame que o Brasil não vai pra frente por falta de gente capacitada, ele só está participando do coral desafinado de diversas línguas e culturas. É óbvio que a demanda por postos de trabalho cresce mais que a oferta de profissionais devidamente capacitados para esses postos.

Confrontando isso tudo, dá pra garantir que em tecnologia o Brasil é único (como qualquer outro país).