Aproveitando a deixa de Zweig e ainda falando sobre o futuro, você há de concordar comigo que Isaac Asimov foi um cara e tanto. Seja você um fã ardoroso, um leitor ocasional ou se você somente ouviu falar dele, saiba que 99% dos grandes cientistas e profissionais de tecnologia passaram muitos homens-hora em frente aos textos de Asimov.
Um dos seus contos mais interessantes é “Professions“, publicado no livro “Nine Tomorrows” no final da década de 1950. Asimov faz uma reflexão sobre como seria o ensino no futuro, e que lições podemos tirar disso. Por mais que seja uma ficção, “Professions” mostra uma realidade que parece muito provável (como quase todo conto de Asimov).
E como é que a realidade vem imitando a arte?
[ O nÃvel decadente do ensino em Tecnologia ]
Todos sabemos que existe um gap cada vez maior entre o profissional demandado pelas empresas e o aluno que termina a faculdade. Não é só em faculdades particulares conforme explicado no Mundo.IT, mas também nas universidades federais. E isso não é um problema somente do Brasil…
O artigo recente dos professores Robert Dewar e Edmond Schonberg entitulado “Computer Science Education: Where are the Software Engineers of Tomorrow?” chamou muita atenção na imprensa especializada em tecnologia. Infelizmente a cópia original do artigo não está mais online, mas é possÃvel ler essa entrevista com o autor. Nela, vemos que ele foi mal-interpretado em alguns pontos… Ele advoga - e eu concordo que isso acontece também aqui - que as escolas americanas estão tentando resgatar o interesse dos alunos através das estratégias erradas. Por exemplo, se os alunos acham matemática muito difÃcil e querem programar coisas mais interessantes, eles reduzem a carga teórica dos cursos e introduzem mais programação visual, podando o ensino de algoritmos.
[ Então como deve ser o ensino? ]
Obviamente isso é uma resposta complexa, e eu tenho minha própria teoria. Faça de conta que isso é um conto de ficção cientÃfica, e eu posso prever o futuro sem você me atirar pedras.
Com o passar do tempo, os profissionais de TI estão se dividindo em quatro castas diferenciadas:
- Os Seguidores
- Os Escritores
- Os Pensadores
- Os Filósofos
Vejamos cada um com mais detalhes, e os percentuais que imagino para cada um (números que vêm somente da minha experiência em compor equipes e observando a composição de equipes externas).
O primeiro grupo terá pessoas com menos instrução, menor capacitação técnica e maior padronização de atividades. Entre eles estão os testadores, os analistas de suporte ao usuário e todos os outros que não precisam entender o que estão fazendo - e sim desempenharem seu papel seguindo um script pré-determinado. Imagino que em breve eles representarão 30% da mão-de-obra em TI.
A segunda casta será formado por profissionais mais capacitados que o primeiro, mas ainda com pouca experiência e sem serem fluentes na tecnologia que estão aplicando. Um programador “arrastador de componentes” pode ser colocado nessa categoria, e também um analista de requisitos ou administrador de sistemas iniciante: eles conseguem entender os detalhes da tarefa que executam, e até mesmo propor novas formas de realizá-la - mas não precisam fazer muito mais que escrever ou fazer o que lhes foi atribuÃdo ou contado por outro profissional. Minha suposição é que eles formarão 50% da mão-de-obra do mercado.
O terceiro grupo envolve os profissionais cujo único trabalho é pensar: receber informações, manipulá-las de diversas formas possÃveis e então decidir o que deve ser feito, para realizarem a tarefa eles mesmos ou então repassarem aos seguidores ou escritores. Nesse grupo estão pessoas com maior formação técnica, mas não necessariamente experiência. Um excelente cientista da computação recém-saÃdo da faculdade pode se tornar um arquiteto de software iniciante, desde que tenha entendido perfeitamente todos os algoritmos, plataformas e estruturas de dados vistos em seu curso. O mesmo vale para engenheiros de sistemas, projetistas de circuitos integrados e analistas de dados. É esse tipo de profissional que os departamentos de computação das universidades federais ao redor do Brasil dizem formar: aquele que aprende a pensar e criar, e não ser proficiente uma tecnologia especÃfica. Esse grupo provavelmente responderá por 15% da força de trabalho disponÃvel.
Os Filósofos formam a casta superior, e compõem uma parcela muito caracterÃstica nos 5% restantes. Eles serão os inventores de algoritmos e produtos tecnologicamente complexos e inovadores, obtendo um entendimento da tecnologia que vai muito além do que os cérebros comuns conseguem enxergar. Assim como há cientistas brilhantes na medicina e engenharia, existirão também esses gurus em tecnologia. Eles serão membros dos três primeiros grupos que passarão por alguma experiência tão diferenciada que os levará a serem brilhantes, e talvez nem mesmo participem do mercado de trabalho… Ou então gênios que não precisaram exercitar sua inteligência no nosso mundo mortal, e serão elevados diretamente à casta dos Filósofos.
Se as empresas quiserem mesmo ter uma oferta suficiente de profissionais em TI, precisarão entender esses grupos e perceber que castas diferentes precisam de escolas diferentes. Além disso, entender que existem perfis de comportamento e personalidade adequados a cada um dos grupos - e devem parar de exigir dos Escritores um comportamento de Pensadores, ou dos Seguidores um comportamento de Escritores.
Enquanto o entendimento dessa estratificação for difuso, as empresas continuarão a precisar de pessoas inexistentes e a contratar profissionais errados.
[ Conclusão ]
Voltando ao conto de Asimov que inspirou esse post, o protagonista é marginalizado devido à sua incapacidade de adaptação ao sistema de ensino vigente. Quer saber por quê? Leia o conto na Ãntegra aqui e veja em qual grupo ele se encaixa.