No início dessa semana, vi diversas notícias sobre a falta de mão-de-obra no Brasil. Uma delas me chamou atenção por chover no molhado: a falta de pessoas capacitadas em Pesquisa & Desenvolvimento no Brasil está levando as multinacionais a criarem centros de P&D na China e Índia.

Isso não é novidade, afinal sabemos que grande parte da P&D multinacional no Brasil é destinada à adaptação de produtos estrangeiros para o consumidor nacional. Mas essa notícia em particular conta que Unicamp, USP e Unesp decidiram gastar dinheiro com uma pesquisa mais abrangente, objetiva e fundamentada nesse assunto. O que eles descobriram? Que 82% dos dirigentes entrevistados disseram que a falta de mão-de-obra capacitada é um risco para investirem no país…

Apesar disso, a grande maioria dos dirigentes continua promovendo discussões com a matriz para trazer mais investimentos para o Brasil. Os principais argumentos usados são mão-de-obra flexível e qualificada (21%), custo competitivo (17%) e infra-estrutura (13%). Mesmo assim, os dirigentes das filiais nacionais associaram a dificuldade de se conseguir mão-de-obra com a falta de pessoas proficientes em Inglês, principalmente entre os profissionais de TI.


Pesquisadores indianos comemoram

Houve uma pesquisa similar em 2006 que descobriu mais de 700 centros estrangeiros instalados na China em 10 anos… e que 50% dos projetos de P&D mundiais foram encaminados aos centros chineses e indianos. Essa matéria também conta que a China é o destino mencionado pelo maior número de empresas (72,1%) para futuras expansões em projetos de P&D. Os EUA vêm em segundo (41,2%), a Índia em terceiro (38,4%) e o Japão em quarto (14,7). O Brasil aparece em 19º lugar, com 1,5% de atratividade.

O mercado da Índia está inflacionado, mas dê uma olhada nisso aqui:

Tudo só em 2007, empregando quase 10 mil pessoas. Isso é mais que a soma dos empregos em TI de dezenas de capitais brasileiras… nas mãos de 5 empresas fazendo P&D. E sem considerar IBM, Cisco, Microsoft e outras centenas de empresas de TI com unidades de pesquisa na Índia.

Agora alguns exemplos na China, também em 2007:

[ Conclusões ]

Mas e no Brasil? Demos uma sorte danada em 2005. De lá pra cá, a unidade mais famosa de P&D em TI nacional conseguiu menos de 100 engenheiros - com uma expectativa inicial ilimitada de contratações. Se alguém bater um papo com o Larry ou Sergei, vão ver que mexer com P&D em TI no Brasil é uma furada.

Trazer investimentos em P&D não é uma coisa fácil. Os números falam contra nós, e a favor dos orientais e indianos. Não há estruturação política ou científica em nível nacional para informar benefícios do Brasil em P&D, nem um trabalho governamental mais sólido e abrangente. Afinal, ainda estamos tentando incentivar o desenvolvimento da cultura de P&D no Brasil (vide crescimento surpreendente de editais diversos da FINEP, CNPq, entre outros)…

Mas será que não devíamos queimar uma etapa de cada vez? Nos lembrar que o governo da Índia passou 30 anos investindo em TI para chegar onde está hoje… será que não deveríamos continuar criando uma cultura de P&D interna, para depois falar de atrair investimentos externos? Não somos nós que batemos no peito dizendo que o Brasil é uma potência em TI? Então vamos lá, minha gente. Vamos virar notícia com pesquisa em TI no New York Times. Vamos criar equipamentos e soluções inovadoras de tecnologia e divulgar pro mundo… E fazer isso por décadas.

Como se vê, não é tão fácil assim. Porque o problema não é P&D, não é incentivo de governo… é da educação nas universidades e o mercado da pesquisa acadêmica no Brasil… Mas isso é assunto pra outro post.